terça-feira, 17 de novembro de 2009

Se Isto é um Homem

por Eunice Martins, 11ºIV

Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casas aquecidas,
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece a paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher
Sem cabelos e sem nome
Sem mais força para recordar
Vazios os olhos e frio o regaço
Como uma rã no Inverno
Meditai que isto aconteceu:
Recomendo-vos estas palavras.
Esculpi-as no vosso coração
Estando em casa andando pela rua,
Ao deitar-vos e ao levantar-vos;
Repeti-as aos vossos filhos.
Ou então que desmorone a vossa casa

É esta a composição que abre, como pseudo-prefácio, o livro Se isto é um homem, de Primo Levi, antecipando um pouco aquilo que ao longo da obra se subentenderá ser a sua motivação: divulgar por todo o mundo o que foi o horror do holocausto, sendo quem recusa a propagação desta mensagem indirectamente acusado quase de imoralide.
Primo Levi foi um químico judeu italiano nascido em Turim a 1919, tendo sido deportado para Aushcwitz em Dezembro de 1943 e aí ficado até à libertação do Campo pelos soviéticos em Janeiro de 1945. É com base nesta experiência que escreve este livro, um “monumento à dignidade humana” (Sunday Telegraph). Numa prosa pouco emocional (e nisso reside um pouco a sua excepcionalidade face a outros relatos) e metodicamente organizada, Primo Levi descreve, na primeira pessoa e através de vários capítulos, a estrutura do Lager (Campo de Concentração), as suas normas, o tipo de trabalhos, o vestuário, os hábitos alimentares, as relações estabelecidas entre os vários habitantes e as selecções de quem estava apto para continuar e de quem deveria ser fulminado. A forma como Primo Levi escreve, sem queremos entrar em muito detalhe, propicia ao leitor uma visão realista que visa sobretudo levar a reflectir se aquilo que um homem na vida civil é se pode considerar ainda um homem quando vive no Lager ("=armazenamento" em alemão) e se comporta segundo as suas regras. Primo Levi chama a atenção em várias paassagens para o facto de todos os valores sociais e morais que aprendemos desde pequenos sucumbirem perante a brutalidade da vida do haftlinge ("=homem do Lager"): "(...) mas aqui, no Lager, não há criminosos nem loucos: não há criminosos porque não há lei moral à qual desobedecer, não há loucos porque somos determinados, e cada acção nossa é, naquele momento e naquele lugar, sensivelmente a única possível.”.
É um livro que recomendamos a todas as pessoas que se sintam à vontade para encarar a realidade por mais dura que ela tenha sido (que não são assim tantas...), um livro que pedimos, perpetuando a vontade do seu autor, que leiam, que absorvam, e que transmitam. "Precisamente porque o Lager é uma grande máquina para nos reduzir a animais, nós não devemos tornar-nos animais, porque também neste lugar se pode sobreviver, e por isso é preciso querer sobreviver, para testemunhar, para contar(...)". Não defraudemos, pois, o ideal por que Primo Levi sobreviveu.
sensivelmente a única possível.”. É um livro que recomendamos a todas as pessoas que se sintam à vontade para encarar a realidade por mais dura que ela tenha sido (que não são assim tantas...), um livro que pedimos, perpetuando a vontade do seu autor, que leiam, que absorvam, e que transmitam. "Precisamente porque o Lager é uma grande máquina para nos reduzir a animais, nós não devemos tornar-nos animais, porque também neste lugar se pode sobreviver, e por isso é preciso querer sobreviver, para testemunhar, para contar(...)". Não defraudemos, pois, o ideal por que Primo Levi sobreviveu.

Kind of Blue, the sound of Miles Davis

por Vasco Horta, 12ºII

Faz este ano meio século desde a publicação do mais vendido álbum de Jazz da história da música: Kind of Blue, de Miles Davis (1926-1991). Duas sessões de gravações, sem ensaios, em Nova Iorque, chegaram para produção da relíquia do Jazz e da improvisação, juntando os saxofonistas John Coltrane e Julian Adderly, o contrabaixista Paul Chambers, o piano de Bill Evans, o trompete de Miles Davis e ainda a bateria de Jimmy Cobb, o único elemento ainda vivo. Tendo tido um papel preponderante no progresso do Jazz e tendo influenciado géneros e artistas de todos os quadrantes da música, a obra prima de Davis é reconhecida pela crítica como resposta ao Cool Jazz, protagonizado por figuras como: Duke Ellington, Count Basie, entre outros.

Não só Kind of Blue se assume como bandeira do Hard Bop, corrente do Jazz, influenciada pelo Gospel, como também lhe é patente um carácter experimental, pela ausência de acordes pré-definidos, num tempo em que tal era muito pouco comum. Em suma, esta é uma playlist obrigatória para todos os amantes dos Jazz e de boa música em geral, que, a título de curiosidade, pôde ser ouvida ao vivo no Centro Cultural de Belém no passado dia 11, contando com a presença de Jimmy Cobb. 











Perspectivas - por Diana Alho, 12ºII

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

O Jornal Moderno

Caros Colegas,

Muitos de vós não sabiam da existência de um jornal do colégio até ao início deste ano lectivo. De facto, o projecto do Jornal Moderno está ainda nos seus primórdios, crescendo de dia para dia com os vossos textos, ideias e participações. O nosso primeiro número foi um ensaio, uma tentativa de recuperar uma tradição jornalística dos alunos do colégio há muito cultivada. O Nº2 constituiu um protótipo, já desenvolvido e maduro, o início de um projecto que perdurará e se desenvolverá cada vez mais.

Hoje, recomeçamos um novo ano, com novas ideias, novos horizontes e com um novo formato mais ambicioso: um formato temático. Cada edição estará associada a um tema e, como não poderia deixar de ser, achámos pertinente adoptar o tema anual do colégio, Sim, podemos mudar o mundo, sintetizando-o no mote desta edição: Mudar o Mundo.

Neste sentido, esperamos os vossos textos, poemas, desenhos, fotografias, entre outros, acerca do tema ou sobre qualquer outro assunto. O importante é a vossa participação neste vosso projecto, porque o direito a expressar uma opinião, pensada e fundamentada, não está reservado aos adultos, aos conferencistas que anualmente visitam o colégio, aos jornalistas e comentadores da televisão. Vocês também podem ter a vossa voz. Todos fazemos parte deste Mundo em mudança e, fundamentalmente, desta escola. O JM é a vossa voz, a nossa voz, pessoal e transmissível.

Quanto ao blog, visamos que este espaço seja um local de discussão, um fórum. Podem comentar desde já os textos do Nº2. Os números seguintes só serão publicados aqui, após concluídas as vendas da edição impressa, mas criaremos posts referindo onde podem comentar as participações das próximas edições. Além do cariz dialéctico deste blog, iremos postar textos, imagens e vídeos nossos, vossos e quaisquer outros que considerarmos interessantes. Como é evidente, como jornalistas, sempre que se justificar, em qualquer momento, iremos escrever e publicar no blog textos e imagens acerca dos acontecimentos relevantes do Colégio Moderno.

Inscrevam-se como leitores do blog, nas últimas caixas laterais, estando assim sempre informados dos novos posts, comentários, discussões, eventos, etc.

Sejam, então, muito bem-vindos ao Jornal Moderno.


Vasco Horta
Equipa do JM




Utiliza o "Menú de Navegação" na primeira caixa lateral à direita.



quarta-feira, 29 de julho de 2009

Nº2

Nesta área do blog, publicámos excertos do segundo número do JM, publicado nas últimas semanas de aulas do 3º Período do ano lectivo 2008/2009 e no concerto de final de ano do colégio, realizado na Aula Magna.

A Equipa do JM espera que tenhas gostado da edição impressa e convida-te a consultar este arquivo sempre que desejares. Gostariamos de saber as tuas opiniões/sugestões. Por isso, comenta!

Não te esqueças que este jornal existe enquanto recebermos participações dos alunos. Este é o teu espaço, um espaço de diálogo e discussão para os alunos e professores do Colégio Moderno e para toda a blogoesfera!

Obrigado.


A Equipa do JM

Nº2 de Junho de 2009: Editorial

por Professor António Carlos Cortez




1. Esta edição

Esta edição do segundo número da nova série do Jornal Moderno é a persistência de um projecto e a resposta a um desafio que nos impusemos cumprir. O primeiro número foi, por razões várias, um ensaio, uma espécie de rampa de lançamento desta aventura em que tantos alunos participam. Este número é, como poderão ver, a confirmação de que este Jornal está vivo, permanecerá vivo e é o órgão de todos os alunos do Colégio Moderno.
Com apoio permanente da Direcção da nossa escola, é com um texto da Dr.ª Isabel Soares que, digamos assim, nos inspiramos para levar a cabo este número dois. Tivemos um ano cheio. Um ano lectivo exigente, repleto de iniciativas que muito honram a tradição do Colégio Moderno e enchem de orgulho alunos, professores e pais. O texto da autoria da Directora desta instituição foi lido por ocasião da entrega dos prémios dos concursos de poesia e conto no âmbito da Semana das Línguas, da Poesia e da Literatura. Parece-nos, a todos os títulos, um texto que não podíamos deixar de inserir no segundo número do Jornal Moderno. Para além desse texto, muitos outros nos chegaram. Desde poemas a artigos de opinião, passando por críticas a livros ou reflexões em prosa poética, foi difícil seleccionar os que entrariam. Todavia, os que não foram publicados neste segundo número sê-lo-ão no número de Outubro.

2. Secções Novas e mensagem aos mais novos

Foi nosso intuito procurar abrir o Jornal ao maior número de alunos possível. Há secções que se mantêm (a dedicada à poesia, por exemplo, ou à crónica, que recebe aqui textos de Mafalda Cardeira e Eunice Martins), e outras que, por razões gráficas, deram lugar a espaços novos. Chamamos a vossa atenção para a secção das fotografias, as quais ilustram as actividades realizadas também na Semana das Ciências.
Não há dúvida, portanto, que este número está mais enriquecido, e mais enriquecido porque todos acreditamos neste projecto que é tanto mais urgente, quanto é certo nestes tempos de crise ser fácil o discurso derrotista. Não somos, como se vê, derrotistas! Acreditamos no futuro. Como escreve o Vasco Horta, recusamo-nos a ser como “esses portugueses”, os que criticam mas nada fazem para melhorar, ou sequer alterar este nosso histórico atavismo. As secções novas deste jornal são a confirmação, também, da adesão dos alunos do Colégio Moderno a uma postura mais empenhada, mais consentânea com a herança que é deles! Que é vossa!
Assim, há espaço para textos críticos e/ou emotivos, analíticos e/ou satíricos. Os nossos alunos pensam os problemas deste tempo. Não estão adormecidos. Isso, creio poder dizê-lo, é uma vitória de todos! Mas é preciso sedimentar este projecto. As secções que agora surgem devem continuar e – é preciso referi-lo – queremos que textos dos alunos mais novos, os do 2º e 3º ciclos, cheguem ao nosso jornal. A contribuição dos mais novos, para além de ser lógica e justa, pode e deve funcionar como “respiração”, como fruição de textos mais leves! Vá, vamos! Escrevam para nós, enviem os vossos textos!

3. Mensagem aos 12º anos

Não poderia, neste final de ano lectivo, deixar de fazer uma referência aos alunos que este ano nos deixam para ingressarem na vida Universitária. A título pessoal, devo dizer (e aqui julgo poder falar por todos os meus colegas), que é já com saudade que recordo muitos que, ainda num passado recente, tinham apenas a curiosidade ingénua de crianças acabadas de chegar ao 7º ano. Cresceram como pessoas e como alunos. Em todos, sem excepção, depositamos confiança, certos de que irão cumprir os vossos sonhos, seja em cursos de Medicina, Engenharia, Direito, Arquitectura, Design, Letras ou o mais que queiram cumprir, "segundo a vossa vontade", segundo os vossos ideais. É importante manter os ideais, por muito que certas ilusões soçobrem.
O Jornal Moderno, a Direcção e os professores da vossa escola deseja a todos, em ano de Exames, sucesso! Para tal, indispensável se torna estudar, investigar, questionar o que aprenderam, dominar o que vos ensinaram. É isso que faz o perfil do aluno do Colégio Moderno: alguém que questiona, alguém que, a caminho da idade adulta, não esquece esta passagem pela família Moderno. Não esqueçam. Nós não vos esqueceremos... E Tudo correrá bem!

O orgulho de não ser um desses portugueses

por Vasco Horta, 11ºII



Portugal é, sem dúvida, um país de velhas tradições. Em Portugal não se classificam, nem se julgam tradições. Mesmo que seja a mais absurda, a justificação para se manter é sempre: “ah, é a tradição”. Pois bem, este artigo é precisamente sobre tradições e costumes e outros hábitos degradantes e vis, que se cometem, preservam e canonizam em Portugal.

Comecemos pelo grande e viril espectáculo: A Tourada. Já dizia Afonso da Maia, na obra-prima de Eça, que o verdadeiro patriotismo era fazer uma tourada. O facto de o bom português (ou o mau) gostar de ir à tourada, ver o touro ser espicaçado dezenas de vezes por um indivíduo em cima dum cavalo, é preocupante. Antigamente, quando a tourada passava na televisão, as pessoas viam tudo a preto e branco, de modo que, não imaginavam que o touro jorrasse sangue. Mas quando a televisão passou a ser a cores: ah! O touro deita sangue, que horror! Bom, quando a televisão era a preto e branco, os touros também eram animais, também deitavam sangue… Ora, isto mostra que o povo adepto das touradas precisa de ver as coisas à sua frente para se escandalizar. Escandalizados deviam estar todos os portugueses com o que aqui se faz. Mas voltando ao assunto, o Zé-povinho gosta de “ir ver os toiros”, para se divertir e aplaudir a coragem e a bravura do toureiro (imensa bravura, o cavalo é que apanha com o touro, mas sim, é de uma valentia hercúlea). A primeira questão que se põe é: como é que alguém se diverte com o sofrimento do outro? Bom, talvez porque…é a tradição. De facto, as pessoas fecham os olhos ao que não lhes interessa. Todos sabem que o touro ao ser espetado sente uma coisa (aparentemente sem importância) a que se chama dor. Dor. Será que sabem o que é sentir uma vara de ferro, um daqueles espetos do churrasco, a entrar nas costas e a ficar lá, seguidamente de mais dois ou três. Será que sabem o que é ter de fugir, já em pânico, do próximo espeto, suportando os outros três atrás, enterrando-se no músculo contraído. É aborrecido não é? Ah, mas não interessa: é a tradição.

Depois da festa brava, porque não ir comer uns caracóis. Entra-se ali na tasca e é só pedir. São cinco euros o prato, é barato e sabe bem. – Esta é, porventura, a tradição com mais unidade em Portugal. De norte a sul, todos gostam de caracóis, de estar ali na esplanada a desfrutar do Sol, mas cuidado com as queimaduras. Com efeito, é de queimaduras que vou falar: o caracol teve o azar de respirar como nós, então chega, dentro de sacos, às cozinhas pelo país fora, de tal forma, que quando é colocado no tacho com água, ainda fria, está vivo. Porém, não se afoga, pois vem à superfície para respirar. Deste modo, para os matarem, os cozinheiros vão aquecendo a água progressivamente, até que.ferve. Entretanto o pobre caracol vai sendo cozido, enquanto os portugueses (e estrangeiros que também gostam) esperam famintos pelo petisco. Também pode optar pela lagosta suada (o nome diz tudo, um pouco cínico talvez). Enfim, estas são algumas das muitas tradições "louváveis", que se praticam na Ocidental Praia Lusitana.

Este artigo, em tom de denúncia ou de desabafo talvez, não deve ser visto como uma ofensa às tradições portuguesas e a Portugal. Pelo contrário, são muitas as tradições portuguesas que devem ser mantidas e que tornam Portugal um país singular. No entanto, o caminho para tornar o nosso país um país melhor é, precisamente, acabar com certos costumes que de humanos nada têm. Cada um de nós deve reflectir se é eticamente correcto promover ou assistir impavidamente a tradições cruéis, como as que acabamos de ver, que tornam os homens não mais do que bestas sadias.



Não deixes que a tua pátria te envergonhe, vai a www.blogdaanimal.blogspot.com, www.peta.org, www.youtube.com/watch?v=DHNozm9w0VU e combate estas crueldades. Pelo teu país, pelos teus valores, pela tua condição de ser humano, LUTA.

Participa nas manifestações contra a tourada promovidas pela Associação Animal, vê em www.blogdaanimal.blogspot.com






Breve crónica porque mais do que isto eu não tenho

por Eunice Martins, 10ºIV


“Nesse céu onde o olhar
É uma asa que não voa”
Alexandre O'Neill


Portugal e eu temos tanto em comum... Sou a pequenez das cidades remotas, escondidas no interior do país. Portugal é uma pequena Igreja, um jardim bonitinho com bancos rudes, de pedra. Portugal é uma calçada velha e os rostos agastados das pessoas desprovidas de esperança. É tudo tão... amostra. As pessoas são amorosas: quem as olha é percorrido sempre por um sentimento muito fechado e fatal, um “tem que ser assim” que toma forma num sorriso de orgulho e tristeza vaga ao mesmo tempo, por não haver outra maneira, por não haver.
É como ter um certo prazer na dor, porque é peculiar e engraçado. Mas, no fundo, sofrer é não querer isso. Porque assim é bonito, mas não passa disto. Não passa de uma “pequena dor à portuguesa / tão mansa, quase vegetal” que todos carregamos. A dor que está lá atrás: a dor da nossa História. A queda é o que há de mais fácil. E depois dela, destroços, a míngua de tudo, a apatia generalizada. É isto que é Portugal. É isto, não é mais, e nisto não há nem bem, nem mal. Há existência.
Portugal, Portugal... O único escape para esta velha dor é a morte. A morte completa da alma portuguesa, a morte deveras. Morrer para acabar com a dúvida que não cessa, a dúvida que encerra aquele verso tão batido: “É a Hora!”
A dúvida que nos põe a pensar se é a Hora de erguer e fazer ouvir Portugal, ou se é a hora de acordar e ver que não há nada. Sim, a dúvida que nos persegue (que nos percorre) e hoje já quase não é dúvida, desde 1580, por Cristo! Portugal precisa de “morrer de coração aberto” e libertar, enfim, o nome no seu sangue. Portugal precisa de nascer uma outra vez e “procurar noutros olhos a medida”.
Tudo o que foi aqui dito se movimenta num plano demasiado etéreo, de facto. Talvez eu devesse falar em reformas para o ensino, em vez da morte do meu país. Mas eu nasci para ser assim, e é preciso terminar esta crónica da única maneira possível para o seu encerramento: Eu preciso de vos dizer, caríssimos, que ela exprime a minha estranha condição e que me espelhe. Porque eu sou irremediavelmente igual a Portugal.






De ilusão em ilusão

por Pedro Pinto, 11ºIII



Segundo António José Saraiva, Portugal sofre de uma forte dependência exterior no que respeita ao capital, não gerando riqueza própria mas antes acreditando que virá do exterior. Se entre os séculos XVI e XX a solução vinha do Império, mais recentemente a política adoptada centrou-se na realização de grandes eventos no país, publicitando-o largamente pelo mundo, depois da perda de importância das remessas dos emigrantes.

Na verdade, o Império que Portugal soube construir acabou por se revelar numa solução temporária para atenuar a falta de criação de capital do país, deixando de ser rentável dali a poucos anos. Veja-se o exemplo da pimenta do Oriente, cujo auge ocorreu ao longo do século XVI, ou mesmo do café de São Tomé, que ganhou importância dali a três séculos: em ambos os casos, embora a exploração dos recursos parecesse o melhor método de criar riqueza própria, cerca de meio século mais tarde ou começava a não se revelar atractiva ou entrava mesmo em decadência.

Em pleno século XX, em que Portugal era já dos poucos países do mundo a possuir colónias, embora em número muito menor se comparado com os tempos dos Descobrimentos, a solução parecia passar pela exploração intensiva do território africano, em especial os diamantes de Angola. Com a guerra colonial, muitos portugueses optaram por emigrar para a Europa ou mesmo para terras americanas, acreditando agora os que restavam no país que a solução, com o Império já em decadência, passava pelas remessas daqueles que deixavam o Portugal. Contudo, com o regresso de grande parte dos emigrantes ao país após o 25 de Abril, toda a espera construída durante treze anos de Guerra Colonial caiu por terra: perto de um milhão de portugueses voltaria a Portugal nos anos que sucederam a revolução.

Com o Império praticamente desfeito, ainda foram muitos os que acreditaram que os fundos europeus poderiam solucionar os problemas estruturais do país. No final da década de 80 e em grande parte da década de 90, o Fundo de Coesão da então Comunidade Económica Europeia destinou avultadas verbas para Portugal. Ainda assim, nem todos os recursos foram bem aplicados, começando na verdade a esgotar-se no virar do milénio e a voltar-se para os países do leste europeu alguns anos mais tarde. Portugal não chegou na verdade a desenvolver-se solidamente com os fundos europeus, que acabaram por marcar uma década de prosperidade em que se incluiu a realização da Expo’98. O evento foi considerado notável pelos seus onze milhões de visitantes, muitos deles estrangeiros, e promoveu mesmo a reabilitação de uma área da cidade de cariz industrial, votada ao abandono, e actualmente transformada numa zona de luxo. Apesar de ter fomentado a auto-estima dos portugueses durante perto de quatro meses e de ter promovido a imagem do país no exterior, as receitas acabariam por não ser devolvidas da forma mais correcta ao país em geral, mas antes a construtoras imobiliárias e a grupos privados que da venda dos terrenos tiraram o máximo de proveito.

Enquanto a Expo’98 abriu as portas do país ao mundo e se baseava num evento cultural, o Euro 2004 abriu as portas à Europa e aos fãs do futebol. Quando foi anunciado ao país em 1999 que iria acolher o Campeonato Europeu, a prioridade passava por construir cinco novos estádios e requalificar outros cinco. Em 2003, por época da inauguração dos recintos, não só se verificou que os custos haviam disparado como também havia acabado por ser construído mais um estádio, financiado por todos os portugueses. Só aí se começou a entender que algumas infra-estruturas talvez não fossem rentáveis, embora o tempo da loucura estivesse quase a começar e a prioridade fosse outra. Depois de acolher três jogos do Europeu e mais uma meia dúzia de outros, o Estádio do Algarve revela-se agora um buraco financeiro, havendo já sido planeadas inúmeras outras utilizações para o recinto sem que nenhuma delas tenha sido adoptada. Passados cinco anos, são efectivamente poucos os portugueses que ainda se recordam do evento megalómano, enquanto são muitos mais os que passeiam pelo Parque das Nações e o associam indissoluvelmente à Expo’98. Em todo o caso, se no século XVI a pimenta do Oriente foi vista como a esperança durante cinquenta anos, o Euro 2004 talvez o tenha sido por um mês. O período de influência da criação de capital é cada vez menor, bem como os seus efeitos a curto e a médio prazo, embora a expectativa seja sempre enorme: na verdade, o Euro 2004 seria “a” solução.

A America’s Cup, que previa a realização de um campeonato de vela em Portugal em 2007, acabou por se alojar em Valência e por trazer uma grande desilusão ao país num período em que o Euro 2004 estava à porta. Na verdade, o evento permitiria alargar a imagem de Portugal como país atlântico ao mundo e traria certamente muitas receitas. Se questionarmos um português qual foi o evento que ocorreu no país vizinho em 2007, muito provavelmente não saberia que fora a America's Cup. Quantos europeus saberiam que o campeonato de vela havia sido realizado em Portugal, caso o país tivesse sido escolhido, dois anos depois?

Oxalá Portugal não venha a realizar um novo campeonato de futebol, desta vez do mundo, em 2018, com ou sem a Espanha…

Com efeito, só alimentaríamos ilusões.

E Tudo Falha. Será?

por Gil Cardoso, 11ºII



E tudo falha - e todos falham - porque o solo português, o solo moral e solo físico, não permite que nada de nobre ou elevado triunfe. É esta a nossa lusitana mentalidade.

Esta tão comum ideia de que nós portugueses seremos sempre os piores, os últimos, é de facto o nosso pior inimigo. Temos o prazer de escarnecer de nós próprios com os “nomes mais ridículos e com o desdém mais burlesco” citando Eça. Perdemo-nos. Resta-nos apenas morrer rindo dolorosamente de nós próprios. Mas será que este fatalismo é tão forte que nos obriga a desistir, e que corta qualquer acção em prol da nossa prosperidade? Será que este fatalismo é inultrapassável? Ninguém está condenado à partida a não ser que assim o pense, e é importante que não o esqueçamos. Temos de nos insurgir perante esta doente apatia portuguesa. Não precisamos de nos limitar a copiar o que vemos lá fora. Também somos férteis em ideias. Também nós portugueses podemos ser exemplo para outros.

Não devemos deixar que as nossas acções se contagiem por esta inércia devastadora. Substituamos a fatalidade por esperança, a troça de nós próprios por orgulho e a inércia por iniciativa. Só assim deixaremos de ser “ uma jangada de pedra no Atlântico plantada ” e passaremos a ser “um transatlântico fugaz e dinâmico”.
Todos somos culpados do estado ao qual chegámos, e é de nós que tem de partir a solução. Chega de atribuir culpas aos outros. Comecemos à procura duma solução. Somos como terra fértil à espera de ser regada, e a água somos nós. E tudo falha? Só se nós assim quisermos.



Este artigo foi também publicado no blog www.idadeparapensar.blogspot.com

Sal da Língua...poesia


se pensas que és único, estás enganado!
o facto de pensares, tira te esse dom por completo.
o único é o inigualável, o intocável,
o sonho que nunca se tornará realidade.
não penses, sonha, mas...
não tentes pensar que estás a sonhar,
só te estás a enganar.
Vive cada dia como se fosse o primeiro,
e não como se fosse o último,
esse é o derradeiro,
é o sonho mais profundo!

António Daskalos, 12ºIA





deixas-me impressionado quando falas de ti,
ter te a meu lado foi algo que nunca vi.
Gostaria de um dia, impacientemente esperando por ele,
partilhar tudo o que há de bom e de mau,
podendo dizer que era amor de que se tratava.
Não penses na minha pessoa,
olha para o meu guião, e nunca irás encontrar a palavra não.


António Daskalos, 12ºIA





Auto-retrato

Tu, ó Catarina, que no vermelho
E ufano orgulho de seres quem és
Te proclamas de Beauvoir espelho
E não passas somente do que és

“Andando, tropeçará no pedragulho
do passeio da vida e, ao invés
de se levantar, caminhará sem orgulho.”
Sentença esta cair-te-á aos pés?

Quiçá...mas de íris castanho brilhante,
És jovem e grandiosa aspirante
A mais que mera cidadã do mundo

Branca e clara e pura, diante
Papel escreves a vivência palpitante
De seres nova com sonhos de ir profundo.

Catarina Pires, 10ºIV






Ver as horas passar como seres deliquetes
à procura da sua fuga
pelo relógio
que é a obra de arte

Uma fina flor
em tudo semelhante ao bater das horas
sabeis que vai morrer, meu caro,
esmagada por um transeunte
murcha pela chegada do joalheiro...

É só prazer, é só prazer,
nem vestígio da Razão que alastra e apodrece!
O efémero vagar do que se senta no escabelo,
o fumo que corrói por entre os dedos,

a vida no ar derivada
do cantador que doí,

à espera da carruagem da vida
...pois que venha!

….

um minuto pela minha dor:
macula a razão os momentos de prata
E me recordo de versos pessoanos plenos de sentido

….

- Que mais?
á sei...já sei...

- Volta lá ao escabelo

Morella






Dezembro

( para ela )

Podia ir ao encontro de todos, ou
mesmo de ninguém.
Qualquer uma das coisas aconteceria,
desobedecendo ou não à minha vontade.
E sim, fui ao encontro de alguém.
Foi quase evidente.
Pois, normalmente, o primeiro
encontro dos encontros é sempre estranho.
Mas o nosso não foi por completo.
Havia luz por toda a parte,
todas as bocas estavam abertas.
Apenas faltavam as palavras certas,
embora houvesse solução. Aliás, houve.
Mudaram-se os tempos, mudaram-se as vontades,
mudou-se o ser, mudou-se a confiança.
E as palavras também.
O encontro era o mesmo, as
palavras é que já eram outras.
Tinham mais dignidade

Francisca Pacheco Pinto, 10ºIV







Cadavre Exquis

Vem sentar-te ao meu lado, Lídia
Ainda de forma irrisória, Lídia
Esta é a nossa história.
Como um impulso, um recurso,
Um ritmo a pulso
Antecede a minha mão
São tantos os roubos
Não consigo contar com os dedos
Bonitos nessa mão branca, macia
como um sofá de veludo
Vermelho-sangue riscado
Pelas linhas negras
Do alcatrão da entrada.

12ºII e 12ºIB






Esperança


Portugal é o mar

que espera ser olhado

mais uma vez

Portugal é o sol

que espera animar

mais uma vez

Portugal são as pessoas

que esperam que algo seja feito

mais uma vez


Catarina Veiga, 11ºII

(2º prémio do Concurso de Poesia da Semana das Línguas)






Viagem de Observação

por Mafalda Cardeira, 12ºII




Um pé de cada vez. Enfim, cá estou eu. Decido o lugar, se não possuir suposição de me fixar, então em pedestal permaneço. O automatismo conduz-me a estabelecer na secção do fundo, de predilecção contendo a janela do meu flanco sestro.Encontro-me em andamento. Todavia, previamente, cedo a entrada e lugar a diversos. Não resisto a deixar uma velha passar à minha frente («Passe por favor.»). Alguns circulam velozmente, outros imobilizados, outros ainda a fumar e outros com a paixão.Todos iguais, todos diferentes. Uns com bolsas, mochilas, casacos pretos, camisas brancas, botas, ténis, sapatos. Outros a ouvir solfa, à espera, a assobiar, a retocar a maquilhagem, a decorar, a subtilmente perscrutar, a mofar ou rir, a reflectir, a dormir, em pé ou sentados. Na sétima paragem, um pouco inane, pára ao pé de um miúdo campo de bola. Começo a sentir-me melhor, pois encontro-me a mais de metade do destino. Da sétima para a oitava, passamos por uma Infantil ou Primária (nunca cheguei a perceber o que é). Porém, observo com contentamento as crianças a retirarem-se. É perto das cinco e meia da tarde (ou talvez mais), e permaneço no pensamento dessas crianças serem, de facto, o nosso futuro. A alegria dos pais ésilenciosa. Algumas mães excessivamente apressadas com os seus anéis, malas de marca, casacos de pele, óculos enormes e mesmo assim, conseguem encaminhar as crianças até aos seus exuberantes carros onde mais tardiamente, as tais crianças, vão ser abandonadas aos cuidados de uma ama ou mesmo da empregada "lá de casa". Afinal, essas tais crianças, nem sabem o que o futuro as espera, nem eu. Os bancos azuis com pequenos símbolos pretos e verdes são bastante confortáveis mas para meu mal: inclino-me para trás e enterro-me neles (concedendo assim uma posição desconfortável). As Senhoras que me acompanham nesta jornada, têm uma aparência acre e fúnebre como se, de facto, tratassem de empregadas domésticas. Fios de ouro ao pescoço, brincos esféricos com uma espécie de auréola roxa (ou assim). Camisolas que não se enquadram sequer com os seus cabelos grisalhos nem com as suas velhas marcas. Numa cor avermelhada escura, vestem calças que acabam um pouco acima do nível dos tornozelos para se verem as meias da “íntima” que usam. Os seus relógios pretos, castanhos e cinzentos, em tudo se parecem com a inutilidade que (Elas) dão ao tempo. Gente moça… Não há insuficiência. Desde os mais pequenos àqueles que “aparentam” os seus 25 (esquecidos) anos. Mas ainda usam os seus aparatos juvenis.Há idades para tudo… O silêncio indica-me que estou cada vez mais próxima da saída. Eu ambicionava (ou mesmo, desejava) continuar para observar aquelas inumanas estátuas durante mais algum tempo mas a maneira com que certos olhares vermelhos e amarelos encontram os meus olhos, faz-me morrer para sair dali! Um pé de cada vez. Cheguei a casa.

A relação da juventude actual com a chamada “música clássica”

por Tomás Nunes, 11ºIA



Fui abordado pelo responsável deste novo jornal e questionaram-me se poderia participar nesta iniciativa inovadora, que talvez poderá abrir as mentes dos seus possíveis leitores. Efectivamente, pediram-me para expor algumas das vertentes do trabalho desenvolvido pelo Grupo de Música de Câmara. Friso que a minha primeira reacção foi a de não aceitar.
Contudo, e agora que estamos no final de um ano lectivo em que explorei Eça de Queiroz, autor que sublinhou o carácter diletante em Portugal, algo se acendeu em mim. Muitas vezes reflicto sobre qual será a razão pela qual as pessoas nem sempre apoiam o trabalho musical no Colégio e olham de cima para baixo para nós. Julgo, então, que esta talvez seja a melhor oportunidade para vos tentar atrair não só para este projecto, mas também para tentar alargar os vossos horizontes musicais.

Como sabem, este ano o nosso Grupo de Música de Câmara tentou contribuir para o tema do colégio: ‘O Orgulho de Ser Português’. Apostámos no desenvolvimento de músicas portuguesas. Com efeito, como deverão ter constatado ao longo das apresentações durante as semanas temáticas da Ciência e Línguas, o repertório utilizado aliou e unificou duas artes inseparáveis: a Música e a Literatura.

Note-se que, no concerto de final de ano, tentaremos (sim, é mesmo tentar) elevar este repertório a um superior nível de qualidade, apostando no trabalho árduo e ao mesmo tempo na amizade e laços que unem grande parte dos membros deste grupo.
Por outro lado, aproveito este artigo para vos dar o conhecer o Quarteto Dacapo, em que participo. Na verdade, este grupo foi criado de modo a podermos ter uma segurança de que daqui a uns anos, quando a nossa carreira lectiva colegial chegar fim, nos iremos continuar a encontrar obrigatoriamente. Assim, mais uma vez se alia a amizade à música. Gostaria de convidar o leitor a vir ver uma audição provavelmente diferente daquilo a que estão habituados. De facto, interpretaremos alguns ramos musicais que nada têm de conexão histórica, ideológica e temporal. A atmosfera será peculiar: irá ocorrer a fusão de sons de Tango, de Gardel e talvez Piazolla ao clássico e globalmente conhecido Mozart.

Constato agora que talvez devesse ter feito um planeamento sobre como este artigo se deveria desenrolar, na medida em que me sinto perdido. Tanto para dizer, tão pouco espaço para o fazer.
Parto então para uma conclusão, que talvez não a melhor, que talvez acenda desagrados. Todavia, estamos numa democracia, e a escrita talvez seja o meio que mais a representa.
Ao leitor que sobreviveu a este artigo sem rumo e reflector de uma total inexperiência criativa, gostaria de conseguir activar em vós um espírito mais aberto. A verdade é que estou neste momento a apostar comigo próprio que 99% dos leitores, assim que verificaram o tema deste ‘artigo’, nem se esforçarão para o ler.

Custa-me viver numa altura em que assim que se houve a expressão ‘música clássica’ a reacção é instintivamente negativa. Pesquisem, explorem os sons, activem o vosso sentido crítico e talvez um dia possam estar a realizar uma determinada actividade, pondo o vosso ipod em ‘aleatório’, saltitando de Kaiser Chiefs para Bach, Interpol para Brahms, e assim sucessivamente, tal como eu estou a fazer agora. Existem muitas cores musicais por descobrir.

Viagens: de Camões a Saramago


por Prof. António Carlos Cortez








Falar de Camões é sempre um desafio. Se, ao falarmos do autor da épica somos, desde logo, invadidos por um halo de respeito e veneração (no sentido do conhecimento íntimo dos textos e não de uma qualquer salivação elogiosa), igualmente ao falarmos de Saramago esses mesmos respeito e veneração tomam forma, crescem no coração dos leitores. Pelo meio, toda uma literatura que urge conhecer nestes tempos mediáticos e em que se confunde a cultura com a publicidade.
Como referiu, há bem pouco tempo Eduardo Lourenço, existimos numa espécie de “idealismo prodigioso” que nos impede, de facto, de viver a vida com aquela atenção ao nosso património artístico e cultural, menoscabando tudo o que seja iniciativa cultural, investimento artístico, pensamento reflexivo. E, todavia, todos têm uma opinião, todos emitem os seus arrazoados, sobre nada e sobre tudo...
Vêm estas palavras a propósito de um breve itinerário em torno de quatro obras literárias que nem sempre são cotejadas com a devida atenção. O método comparativo em Literatura, com os contributos da linguística e da Filosofia, da História e da Geografia, e outras áreas científicas, é o mais proveitoso na análise literária.
Assim, Os Lusíadas, obra máxima da cultura de Língua Portuguesa, é uma efabulação extremamente original que engloba vários registos na sua forma final: trata-se, como sabemos, de um texto épico-narrativo, com estrofes compostas com oito versos (oitavas), ao abrigo do ritmo decassilábico, como mandava a poética clássica, que Camões dominava como poucos. Por outro lado, interagem com os homens – o Gama e os nautas -, os deuses pagãos, emanações de um Deus a quem Vasco da Gama se dirige em inúmeros momentos; Deus que se encontra simbolizado quer em Santa Maria, quer através da "Madre que nos Céus está em essência", a "Divina Guarda", como lhe chama Camões. Se o Ideal épico é, por um lado, cantar os feitos de um heróis ou de um povo (Homero canta Ulisses, Virgílio canta Eneias, Apolónio de Rodes canta os argonautas), e enaltecer "o peito ilustre lusitano", não menos verdade é que há um outro ideal que rege a intriga da viagem à Índia: o Gama, actante central do poema, fez a viagem entre 1597 e 1499, Camões enaltece essa viagem, mitificando o herói e tornando-o, por meio das "bodas divinas" com Téthys, na Ilha do Amor, símbolo do herói que se auto-conhece, após enfrentar o Medo, representado, na estrutura do poema, no Canto V, justamente a meio da "viagem" da escrita e a meio do percurso marítimo do Gama. Ofélia Paiva Monteiro, num ensaio de 1972, bem como Jorge de Sena, ou Helder Macedo, não se enganaram na interpretação alegórica desse episódio: o Adamastor é, bem vistas as coisas, o Inferno, as forças primitivas que existem no interior do viajante, as quais devem ser conhecidas ( e o monstro conta a sua história), de modo a serem ultrapassadas, por via do crescimento interior (por isso aquela pergunta "Quem és tu?", dirigida ao Titã é, no fundo, a pergunta que a si mesmo o Gama se impõe). Sem irrealismos prodigiosos, certo de que, como dirá Pessoa, "Deus quer, o Homem sonha e a Obra nasce", o Gama pode, a partir do Canto V, enfrentar as profecias malignas, vencendo-as. Uma das mensagens mais pertinentes da épica passa, precisamente, pelo alegorismo do texto: uma epopeia que, seguindo as clássicas é, como referiu António José Saraiva, a primeira das epopeias modernas, na qual o Homem, renascentista, sob o primado do indivíduo, abandona a visão teocêntrica do Mundo, para ver ("vi claramente visto", diz Camões), para se tornar no heróis “seguro e forte contra quem poder não teve a Morte”. E não esqueçamos que, logo na Proposição, Camões pretende cantar “Aqueles que por actos valerosos se vão da lei da morte libertando”, consciente de que “com uma não n’espada noutra a pena” é possível tornar os “barões assinalados” os homens divinizados, os filhos da Luz, como à letra deve ser entendido o título da obra, neologismo de André de Resende.
Ora, Pessoa , na Mensagem, convoca igualmente um sinal ("Bem dito seja Deus, nosso Senhor, que nos deu o Sinal", assim vem encimada a obra), correspondente, na ideologia sebástica e messiânica, ao sinal da Ordem de Cristo. As caravelas da empresa marítima levavam nas velas a cruz vermelha da Ordem, e Pessoa, em Textos Para a Compreensão da Mensagem, considerou impossível o entendimento da obra sem o conhecimento dos símbolos e do pensamento hermético: do templarismo a seus derivados. Os heróis são, nesta obra, mitos e o mito, se é "o nada que é tudo", é porque fecunda a realidade, isto é, sem ideias é impossível fundar o futuro. Camões e Pessoa, neste como em outros aspectos, são irmãos no pensamento. Para Pessoa, a viagem é mítica e mística, o heróis "assiste vário e involuntário" e age em nome duma força divina. Em Camões, a viagem conduz-nos à união mística do herói com a Téthys, na "ínsula divina", podendo o protagonista subir "ao céu sereno", ele vestido de "carmesim", ela, filha do Oceano, num ritual de iniciação do Homem nas águas do insconsciente, de que Téthys é signo último. Mas viagem é também o tópico de Felizmente há Luar!, obra que, ao submeter o leitor à intersecção de planos históricos (1817/1960), faz do texto-metáfora, um texto-símbolo: Gomes Freire de Andrade, que jamais aparece na intriga, é o deus ex machina, o herói que, na voz de Matilde, é a encarnação de uma coragem portuguesa, desconhecida já dos seus contemporâneos, que o traem, porque se traem a si, acima de tudo. Não creio que esta peça de teatro seja assim tão simples: o Teatro Épico, para Brecht, não era e exigia-se ao dramaturgo que cumprisse aquilo que, curiosamente no romance Memorial do Convento, Saramago levará às últimas consequências: erguer um texto que actue sobre a consciência dos leitores, um memorial, no sentido de "homenagem". Da épica ao romance, a viagem é sempre um itinerário em torno do grande tema que tem obsidiado os poetas e escritores portugueses: Portugal.




Entrevista a Dr.ª Isabel Soares: O orgulho de ser português

Entrevista a Dr.ª Isabel Soares, pelo JM



Tivemos este ano interessantes comunicações, das mais ilustres personalidades, nas Semanas Temáticas. Como vê, em termos gerais, estas actividades?


Pensámos nas Semanas Temáticas, já há alguns anos, como forma de motivar os nossos alunos para o prazer do conhecimento, da cultura e da reflexão. O contacto com personalidades proeminentes, das mais diversas áreas da vida científica, literária e artística e a possibilidade de dialogar com elas abrem horizontes aos nossos alunos e estimulam a sua curiosidade. O entusiasmo com que se preparam e participam nestes colóquios é um testemunho inequívoco de que esta é uma aposta ganha, no imediato e a longo prazo.

Quando, no momento actual do país e do Mundo, o termo “crise” vai entrando pelas nossas casas adentro, parece-lhe que a cultura é a resposta adequada no combate à crise?


A meu ver, a cultura é sempre uma resposta adequada a todas as crises. Naturalmente, quando estão em causa questões de sobrevivência e necessidades básicas elementares, a sua resolução é prioritária. Mas, mesmo as tomadas de decisão no combate à crise económica e social, são mais eficazes quando os dirigentes políticos têm uma visão humanista e integrada da cultura e da história. Na minha perspectiva, a cultura e o conhecimento são os melhores antídotos contra a barbárie e qualquer tendência anti-democrática que surgem frequentemente associados a períodos de crise e assentam normalmente na ignorância.

Na verdade, a crise não é só financeira. Se falamos de crise, não podemos escapar à questão da crise de valores. Mas pode especificar, no seu entender, o que significa a expressão “crise de valores”? É que corremos o risco de, de tanto a repetir, ser mais um lugar comum…A escola ocupa, neste contexto, que papel?


A crise de valores não é um lugar comum, existe. Verificamos todos no nosso quotidiano a falta de rigor, a falta de seriedade, a pouca urbanidade, a falta de civismo, o gosto pela cultura efémera e descartável, em que tudo é possível e de satisfação imediata. Estamos a passar aos nossos jovens a ideia de que tudo é fácil, deve ser lúdico e de gratificação rápida. O rigor, o esforço e o trabalho não são interiorizados como verdadeiros valores. Alguns jovens constroem, assim, uma identidade superficial e sem densidade intelectual e afectiva. Como os jovens são os futuros dirigentes e cidadãos activos da nossa sociedade, cada vez mais global, a Escola tem um papel determinante no combate a esta tendência. Por isso, podemos e devemos ousar assumir esse papel, como fazemos no Colégio Moderno com estas iniciativas, trazendo a cultura e a ciência - o saber - à Escola.


Mas não lhe parece que, a par da escola, pertence aos pais a missão de educar, de facto?


Aos Pais e à Escola corresponde a missão de educar, embora com competências e papéis diferentes, mas complementares. Por isso, refiro sempre a ideia de uma “linguagem partilhada”, entre a família e a escola, no sentido de uma verdadeira convergência de objectivos. A não desautorização mútua é fundamental.

O Colégio Moderno tem formado gerações de alunos que, mais tarde, se destacaram como figuras da nossa cultura. Esses exemplos parecem-lhe poder funcionar, para os actuais alunos, como factores de motivação ou, pelo contrário, não são senão parte de uma história passada? Muitas vezes há a sensação de que desconhecemos quem por aqui passou, que diz pouco aos alunos saber que aqui estudaram José Sasportes, David Mourão-Ferreira, ou ensinaram Álvaro Salema, Urbano Tavares Rodrigues ou João Benard da Costa…

O Colégio Moderno é uma escola com memória e que cultiva essa memória. Todos os que por aqui passaram, com maior ou menor notoriedade, deixaram a sua marca. Mas aquilo que é comum a todos eles é o espírito humanista e solidário. Falar de David Mourão Ferreira, Gastão Cruz, João Bénard da Costa, Odete Ferreira, Mário Soares e Álvaro Cunhal - entre tantos outros - constitui, para nós, um orgulho e um dever, por aquilo que representam na História e na Cultura do país e pelo que as suas vidas e percursos podem servir como exemplo e inspiração para os nossos alunos.

Enquanto Directora do Colégio Moderno, que projectos para o futuro estão ainda por realizar?


Muitos. O nosso Projecto Educativo é um processo em permanente construção, fonte de diálogo, aberto à mudança. Isto só é possível por assentar em princípios e valores de que não abdicamos, e que lhe conferem uma identidade única. Temos que manter a capacidade de nos adaptarmos, através da inovação e da criatividade, às profundas alterações da sociedade. Continuaremos a apostar na vertente cultural, nas novas tecnologias, no reforço da Língua Portuguesa e da Matemática como pilares da aprendizagem. No desenvolvimento de projectos solidários e de voluntariado e sobretudo no envolvimento dos nossos alunos e suas famílias na vida da Escola. Para isso conto com toda a equipa educativa do Colégio.


Para os alunos que este ano se despedem da nossa escola, que seguirão a vida universitária, que mensagem gostaria de lhe deixar, tendo em conta o percurso que todos aqui fizeram e a marca que, em todos, o Colégio Moderno gravou?


Considero que o sentimento de ter cumprido uma missão decorre tanto dos resultados do nosso trabalho, como da convicção com que o desenvolvemos. Apesar de não acreditar em escolas perfeitas, fico muito satisfeita quando constato que o esforço e a dedicação permanentes a uma causa dão frutos na vida dos nossos alunos, muito além da sua passagem por esta Escola. Por isso, àqueles que agora nos deixam, gostaria de dizer, em primeiro lugar, que esta casa terá sempre as portas abertas a todos quantos por aqui passaram, pois fazem parte da grande família do Moderno. E desejar que, nas suas vidas futuras e naquilo que realizarem - no plano académico e profissional e, sobretudo, pessoal – esteja sempre presente uma ética do trabalho e do rigor, orientada pelos valores da cidadania e da responsabilidade solidária. Numa altura em que por todo o mundo se cita o Presidente Obama como um exemplo de esperança e determinação, deixo também essa mensagem aos meus alunos – de quem já tenho saudades – “sim, vocês conseguem concretizar os vossos sonhos”.